Ademar Arthur Chioro dos Reis
Assessor Especial da Presidência da CEPA - Associação Espírita Internacional

 2016 ficará marcado como um ano em que o mundo foi assolado por crises – nacionais e em escala global – cujo desfecho ainda é

bastante nebuloso, compondo um cenário de muitas incertezas.

 É impossível desconsiderar a inquietude que toma conta do planeta a partir da vitória eleitoral e das teses defendidas por Donald Trump à frente da maior potência econômica e militar do mundo. Ou o que acontecerá com o Velho Continente a partir do Brexit. A extensão da crise econômica em escala global indica que a recuperação será muito lenta, ampliando a desigualdade entre as nações e os povos. O discurso da retomada do crescimento econômico tem sido usado para impor retrocessos na agenda ambiental. A concentração das riquezas nas mãos de poucos se exacerbou e os mais ricos fecharão o ano com U$ 237 bilhões a mais. Práticas de extermínio em larga escala, levadas a cabo por países em guerra e extremistas religiosos tornaram o planeta um lugar mais violento e inseguro, a tal ponto de se questionar onde e quando será a próxima ação terrorista, e não mais se irá ou não acontecer. Como reagirão países que vivem profundas crises políticas e econômicas, caso do Brasil, Argentina e Venezuela? O que será de Cuba a partir da morte de Fidel Castro? Como a Colômbia foi capaz de rechaçar um acordo de paz costurado por anos a fio? É necessário reconhecer a complexidade do mundo e dos desafios que se apresentam. Nesse contexto, a filosofia espírita oferece uma enorme contribuição. A partir dos seus postulados, permite conceber um novo homem (moral), resultado e ao mesmo tempo construtor de uma nova humanidade.

 Para o espiritismo, a harmonia que rege o universo material e o universo moral está fundamentada sobre leis naturais, escritas em nossas consciências. Está contida na máxima de amor, justiça e caridade ensinada por Jesus. Os espíritos, criados simples e ignorantes, galgam graus diferenciados de progresso intelectual e moral. A sociedade reflete o mesmo processo de desenvolvimento e está condicionada aos avanços empreendidos pelas individualidades que a compõem.


Segundo Kardec, a causa do orgulho está na crença que o homem tem da sua superioridade individual. A visão espírita, fundamentada nos princípios da caridade, igualdade e fraternidade, descortina novos horizontes.

 O espiritismo é, por excelência, agente da solidariedade humana. Ao mostrar que a vida atual está relacionada aos atos praticados em existências anteriores, mas que cada pessoa é autora da própria felicidade, possibilita uma importante contribuição à elevação do nível moral da sociedade.

 Na visão espírita, a união da inteligência e da moralidade pode produzir formas de organizações e sistemas – políticos, econômicos e sociais – mais condizentes com as necessidades humanas e legítimos.

 O espiritismo, desprovido de estruturas hierarquizadas de poder e como movimento libertário e progressista de ideias, conforme é defendido pela CEPA, permite a partir de seus princípios filosóficos analisar de forma abrangente, porém profunda, o homem e a sociedade.

 Assim, a crise que o mundo enfrenta não aparece só como um campo de constrangimentos econômicos, sociais e políticos, mas também como um espaço de enormes oportunidades para o progresso e bem-estar humanos.

 É hora de reafirmar uma agenda global que possa dar resposta aos fenômenos da pobreza e da exclusão econômica, social e cultural, que ainda afetam bilhões de pessoas e garantir desenvolvimento sustentável. E de radicalizar a democracia, unindo exigências de liberdade política com os imperativos da igualdade e da justiça social.

 

 É preciso resgatar a ideia de uma organização social na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição do pleno desenvolvimento de todos. Uma sociedade onde a liberdade não seja expressão do individualismo e nem do corporativismo, mas que impere o pluralismo e a valorização da democracia. Uma sociedade onde a igualdade seja entendida como a persistente e criativa busca das compensações que permitam a homens e mulheres desiguais terem acesso a condições igualitárias de vida, superando os extremos da desigualdade. Onde a fraternidade seja expressão da não-violência, da paz. É preciso ainda superar o materialismo desenvolvimentista e o consumismo que se transformam numa ameaça à vida na Terra.

 O processo de globalização que vivemos é agressivo e excludente e se expressa pelas tormentas provocadas pela movimentação dos capitais especulativos e aventureiros ao redor do mundo. É preciso neutralizá-lo. Mas é preciso mais do que tudo questionar com a mesma intensidade o consumismo egocêntrico, destrutivo, orientado pelo materialismo, pela propaganda e pelo modo de vida onde o importante é ter, não importa o quê.

 Ao chegarmos a 2017 somos instados a renovar nossas energias e a esperança de que podemos avançar, em escala global, na produção de um mundo melhor, mais justo, fraterno e solidário.

 Essa é a mensagem da CEPA, que deseja a todos um Feliz Ano Novo.